Confesso que as vezes sinto vergonha de mim mesmo, acho que sou ingênuo, excessivamente otimista, algo de esperançoso. Eu achava que a política brasileira estava no fundo do poço, não apenas com os senhores que ocupam cargos eletivos, mas com os "pensadores" que fazem o papel de ideólogos em alguns Partidos. Na minha vã esperança, eu achava que quando a nossa direita tivesse voz e partido surgiriam grandes personalidades, gente do mais alto calibre intelectual, que valeria a pena ser lida, debatida, que traria questões pertinentes, bem formuladas. Ledo engano, quando a direita política propriamente dita finalmente surge materializa-se intelectualmente na forma de excrescências como essa gente que escreve no Blog do Partido Novo.
Todos os textos postados neste blog são horríveis, as ciências políticas e econômicas sequer são tocadas, tudo parece ter saído da cabeça de pré-adolescentes que nada entendem do mundo, mas que tem muita vontade de mostrar aos amigos que fazem parte do grupo, que compartilham as opiniões necessárias para participar da brincadeira.
Como disse, todos os textos são igualmente horríveis, mas como não tenho tempo de analisar todos, escolhi um que é especialmente sintomático, chama-se Minha cor não define minha opinião, e foi escrita por uma tal de Deborah Bizarria que, segundo informação no fim do texto, é estudante de economia na Universidade Federal de Pernambuco.
O texto é um tanto confuso, mas, aparentemente, tenta ser uma resposta àqueles que acham que o pensamento, as ideias, enfim, o julgar o mundo é racialmente determinado. Para negar isso, a autora nos brinda com a brilhante ideia de que os únicos critérios que uma pessoa deve ter na escolha "do seu caminho" são sua aptidão e seu desejo.
É impressionante como o indivíduo que brota no texto não é um ser humano como conhecemos, que, para citar livremente o filósofo protestante Soren Kierkegaard, tem história, é ele mesmo e o gênero humano, mas um Adão, um "homo Pelagianus", em bom latim macarrônico, cuja consciência não é influenciada pelas diversas experiências que teve durante a vida, ou pelo ponto de partida para essa vida, mas um ente cósmico, que paira sobre o mundo e que pode, a qualquer momento, decidir que rumo tomar, o que fazer, o que e como pensar e até que profissão seguir e nada pode impedi-lo, porque deve estar dotado, presumo eu de "livre iniciativa", "empreendedorismo", ou algum outro super-poder-classe-média.
Claro que ninguém precisa concordar que a raça "define" algo, até porque, isso é uma posição extremista tão desprovida de sentido quanto achar que o "sofrer racismo" não influência de forma alguma a consciência e o ver o mundo de um determinado indivíduo, como a autora do texto sugere. Aliás, a autora, aparentemente, acha que "sofrer racismo" é uma impossibilidade no Brasil, já que "somos uma nação de mestiços" e ninguém sabe direito quem é preto e quem é branco.
Risível.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2016
Há algo que me parece deverás sintomático na época em que estamos vivendo, que, mais do que nada, demonstra que ela encontra-se em um ponto de ruptura: os cristãos — não os membros de seitas, mas aquilo que podemos chamar de mainstream — começam a gritar "O fim do mundo está próximo!", isso não manifesta, ao menos me parece, uma constatação bem fundamentada, é mais a expressão de um desejo; um desejo que se manifesta toda vez que a ordem vigente sofre alguma ameaça, ainda que vaga, de ruptura.
É importante ressaltar que eu mesmo não sou um "teólogo da libertação", ou seja lá como essas criaturas se denominam, não sou alguém que acha que Cristo era um comunista, hiponga, que falava coisas loucas que aprendeu na Índia com monges budistas, mas, mesmo assim, me causa um certo desconforto constatar que a "apologia da ordem" aparentemente tornou-se ao longo do tempo uma das categorias mais fundamentais da teologia cristã.
A Ordem está sacralizada, se o imperador é cristão, Deus é um imperialista, o poder do Imperador passa então a emanar de Deus, o Imperador foi por Ele apontado e seus desígnios são os desígnios de Deus; quando a Ordem é burguesa, Deus também é um burguês, a Igreja torna-se um empreendimento burguês, os teólogos vêem na Bíblia claros indícios das virtudes da livre iniciativa, da meritocracia, da democracia representativa e de qualquer outra categoria que sirva a Ordem vigente no dia.
Da sacralização da Ordem nada mais se pode esperar do que uma ameaça a ela seja uma ameaça a Deus, que só pode ser respondida por Ele com algo tão decisivo quanto o fim de tudo.
No fim, acho que me equivoquei, os gritos de "Fim do mundo!" não provém de um desejo, mas de uma exigência feita a Deus, para que elimine aqueles que ameaçam esta Ordem, que esta aí estabelecida sobre outra Ordem, que também foi defendida por gritos de "Fim do mundo!".
É importante ressaltar que eu mesmo não sou um "teólogo da libertação", ou seja lá como essas criaturas se denominam, não sou alguém que acha que Cristo era um comunista, hiponga, que falava coisas loucas que aprendeu na Índia com monges budistas, mas, mesmo assim, me causa um certo desconforto constatar que a "apologia da ordem" aparentemente tornou-se ao longo do tempo uma das categorias mais fundamentais da teologia cristã.
A Ordem está sacralizada, se o imperador é cristão, Deus é um imperialista, o poder do Imperador passa então a emanar de Deus, o Imperador foi por Ele apontado e seus desígnios são os desígnios de Deus; quando a Ordem é burguesa, Deus também é um burguês, a Igreja torna-se um empreendimento burguês, os teólogos vêem na Bíblia claros indícios das virtudes da livre iniciativa, da meritocracia, da democracia representativa e de qualquer outra categoria que sirva a Ordem vigente no dia.
Da sacralização da Ordem nada mais se pode esperar do que uma ameaça a ela seja uma ameaça a Deus, que só pode ser respondida por Ele com algo tão decisivo quanto o fim de tudo.
No fim, acho que me equivoquei, os gritos de "Fim do mundo!" não provém de um desejo, mas de uma exigência feita a Deus, para que elimine aqueles que ameaçam esta Ordem, que esta aí estabelecida sobre outra Ordem, que também foi defendida por gritos de "Fim do mundo!".
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