quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

   Há algo que me parece deverás sintomático na época em que estamos vivendo, que, mais do que nada, demonstra que ela encontra-se em um ponto de ruptura: os cristãos — não os membros de seitas, mas aquilo que podemos chamar de mainstream — começam a gritar "O fim do mundo está próximo!", isso não manifesta, ao menos me parece, uma constatação bem fundamentada, é mais a expressão de um desejo; um desejo que se manifesta toda vez que a ordem vigente sofre alguma ameaça, ainda que vaga, de ruptura.
   É importante ressaltar que eu mesmo não sou um "teólogo da libertação", ou seja lá como essas criaturas se denominam, não sou alguém que acha que Cristo era um comunista, hiponga, que falava coisas loucas que aprendeu na Índia com monges budistas, mas, mesmo assim, me causa um certo desconforto constatar que a "apologia da ordem" aparentemente tornou-se ao longo do tempo uma das categorias mais fundamentais da teologia cristã.
   A Ordem está sacralizada, se o imperador é cristão, Deus é um imperialista, o poder do Imperador passa então a emanar de Deus, o Imperador foi por Ele apontado e seus desígnios são os desígnios de Deus; quando a Ordem é burguesa, Deus também é um burguês, a Igreja torna-se um empreendimento burguês, os teólogos vêem na Bíblia claros indícios das virtudes da livre iniciativa, da meritocracia, da democracia representativa e de qualquer outra categoria que sirva a Ordem vigente no dia.
   Da sacralização da Ordem nada mais se pode esperar do que uma ameaça a ela seja uma ameaça a Deus, que só pode ser respondida por Ele com algo tão decisivo quanto o fim de tudo.
   No fim, acho que me equivoquei, os gritos de "Fim do mundo!" não provém de um desejo, mas de uma exigência feita a Deus, para que elimine aqueles que ameaçam esta Ordem, que esta aí estabelecida sobre outra Ordem, que também foi defendida por gritos de "Fim do mundo!".

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